domingo, 2 de outubro de 2011

CÂNTICO CÓSMICO




Vários tipos de Olho

O CULPADO
Aos que vêm aqui dar uma espreitadinha quero dizer que ainda não acabei com este blog. Nem espero acabar. O que aconteceu é que Agosto é sempre um mês complicado e Setembro também o foi: algumas estadias no hospital e suas sequelas que me roubam muito e também um ou outro compromisso. Eu já tinha tudo programado para escrever mais um post, começando uma outra fase da nossa caminhada até finais da década de vinte do século passado. 
O que tenho planeado é o seguinte.
A etapa final é a lei de Hubble, a primeira prova experimental de que o Universo está em expansão.


Olhando este gráfico, cujos valores são os que Hubble obteve, embora arranjadinhos de uma maneira mais elegante, tiramos duas conclusões:
1) as galáxias estão a afastar-se de nós, excepto as mais próximas; depois explicarei qual a causa disso;
2) quanto mais afastadas, maior a velocidade com que se deslocam, como mostra a inclinação da recta.

Mas para chegar a esta Lei, foi preciso resolver dois problemas:
1) a determinação das distâncias das estrelas e das galáxias;
2) o cálculo da velocidade de deslocamento das galáxias.
Como já falei do primeiro (lembram-se de triangulações, paralaxes, Cefeidas!?), vamos ao segundo. A resposta é muito simples. Esta velocidade mede-se por meio do Efeito Doppler. Este efeito era já conhecido para o som.  E quase todos o experimemtámos: quem está numa estão de comboios e vê passar um comboio a apitar, verifica que o som é mais agudo quando ele se aproxima e mais grave quando se afasta do que quando está parado; ou quando uma ambulância passa a grande velocidade. Isto acontece assim porque as ondas sonoras se comprimem (som mais agudo) quando a fonte emissora do som se aproxima e se distendem (mais grave) quando se afasta. Ora o mesmo sucede com a luz, embora aqui o fenómeno seja um pouco mais complicado. E por isso terei de dedicar algum tempo à natureza da luz: partícula ou onda? Seja como for, o seu comportamento é (também) ondulatório (ondas electromagnéticas, assim se diz). Portanto, quando a fonte luminosa se aproxima, as ondas "luminosas", tal como as sonoras, também se comprimem (com a aproximação) ficando mais azuis ou se distendem (com o afastamento) ficando mais vermelhas. Como se vê no gráfico abaixo, a generalidade das galáxias afasta-se pelo que teremos um "desvio para o vermelho" (redshift). A dificuldade é que todos os corpos quentes emitem um "espectro" contínuo, isto é de todas as cores. Como sei se o desvio é para o azul ou para o vermelho? Tendo em conta os elementos que formam as estrelas, pois cada elemento químico tem uma espécie de impressão digital que o identifica: umas riscas "espectrais".
Vejamos um exemplo.


O "espectro" do meio é o de um hipotético elemento que está em repouso. O "espectro" de cima é do mesmo elemento, porque tem as mesmas riscas mas estão um pouco deslocadas para o lado do azul: está, portanto, a aproximar-se de nós. O "espectro" inferior é também do mesmo elemento, mas as riscas estão deslocadas para o lado vermelho; portanto, está a afastar-se. Assim, medindo o deslocamento das riscas ficamos a saber:
1) se está a aproximar-se ou a afastar-se;
2) a sua velocidade que é dada pela dimensão do afastamento das riscas relativamente à situação de repouso. 
Chegado aqui, pensei que deveria explicar por que aparecem as riscas e por que são o bilhete de identidade de cada elemento. E para isso terei de falar do átomo e do modo como os electrões se dispõem nele. 
Era este o plano inicial que está planificado e esquematizado nuns papéis, que espero não ter já perdido (dado o longo tempo de espera!!!).
Foi então que me ocorreu que tudo isto não teria sentido se nós ... não víssemos. E achei que era interessante fazer uma incursão pela visão e sobretudo pela fascinante evolução do olho. Ora acontece que eu tinha umas ideias sobre "pigmentos" sensíveis à luz (responsáveis pelo fototropismo e fototaxia); sobre "olhos" primitivos que não passavam de duas ou três células; sobre olhos compostos, como os dos insectos; e finalmente sobre o olho dos vertebrados. Sabia que, dada a "perfeição" do olho, este se tornou uma arena ideal para a luta entre criacionistas e evolucionistas. E também conhecia uma tese muito interessante de que o olho tinha sido um dos motores da "explosão cambriana" (da vida) dado que o seu aperfeiçoamento exercia uma forte pressão selectiva tanto sobre os predadores como sobre as vítimas para rápidas adaptações ou "criações" de meios de ataque e de defesa cada vez mais sofisticados. Por outro lado estas mudanças comportamentais e anatómicas pressionavam também o olho a evoluir no sentido da formação de imagens cada vez mais perfeitas.


E, já estão a imaginar, pus-me a ler artigos e artigos para melhor perceber esta odisseia absolutamente fascinante. Ora bem neste momento tenho tanto material, já mais ou menos arrumado, que preciso de algum tempo para o "meter" num post e sobretudo torná-lo suficientemente intelegível, já que esta evolução envolveu aspectos técnicos muito complexos e requintados. Vamos ver o que sai.

Como vêem, é por culpa do olho que vão ter de esperar. Para se entreterem entretanto, aqui deixo a belíssima pérola de um poema de Ernesto Cardenal (jesuíta, ministro da Cultura sandinista, suspenso por João Paulo II), autor de um livro de "Cantigas" chamado o Canto Cósmico, que trata da evolução do Universo, desde o Big Bang até um futuro no qual temos várias saídas e que na parte final pergunta "Y cual és la importancia de nosotros?". Como vêem está em espanhol e houve uma expressão que não sei traduzir: "tejer molas". Será tecer qualquer coisa que não faço ideia do que seja. Assim, deixo uma referência que pode ajudar. Mas faço-a sobretudo para estimular pequenos ou grande gestos que contribuam para o desenvolvimento dos povos e a realização das pessoas, sobretudo das mulheres. É a opinião de uma mulher do Panamá: "Tejer molas es una parte importante de mi vida", explica a jovem debruçada sobre o colorido material com intrincados desenhos de animais e de formas geométricas, tecido para camisas, vestidos e decorações. "Es más que una simples mola. Es parte del desarrollo de las mujeres, de nuestro bienestar económico, y lo más importante, de la cultura panameña". Rodeada pelos seus preciosos desenhos e imagens, fala sobre um programa de formação (PEOPLink) para mulheres de povos "afastados" poderem aprender a imaginologia digital e a tecnologia informática para vender no mercado da Internet.

E agora vamos ao Cardenal com umas imagens para ir animando os olhos enquanto os ouvidos se deliciam coma música do poema.

CANTO CÓSMICO
Cantiga 1

No princípio não havia nada
     nem espaço
          nem tempo.
               O universo inteiro concentrado
no espaço do núcleo de um átomo,
e antes ainda menos, muito menor que um protão,
e, mais, ainda menos, um infinitamente denso ponto matemático.
                    E foi o Big Bang.


A Grande Explosão.
O universo submetido a relações de incerteza,
o seu raio de curvatura indeterminado,
          a sua geometria imprecisa
com o princípio de incerteza da Mecânica Quântica,
geometria esférica no seu conjunto mas não no seu detalhe,
como qualquer batata indecisamente redonda,
imprecisa e além disso mudando constantemente de imprecisão
tudo numa louca agitação,
era a era quântica do universo,
          período no qual nada era seguro:
nem as "constantes" da natureza flutuante indeterminadas,
     isto é
          verdadeiras conjeturas do domínio do possível.
Protões, neutrões e electrões eram
                                           completamente banais.
Estava justificado afirmar que no princípio
a matéria se encontrava completamente desintegrada.


          Tudo obscuro no cosmos.
Buscando
               (segundo o misterioso canto da Polinésia),
ansiosamente buscando nas trevas,
buscando na anoite,
a noite concebeu a semente da noite,
o coração da noite existia al desde sempre
mesmo nas trevas,
cresce nas trevas
a pupa palpitante da vida,
das sombras sai mesmo o mais ténue raio de luz,
o poder criador,
o primeiro êxtase conhecido da vida,
com o gozo de passar do silêncio ao som,
e assim a progénie do Grande Expandidor
encheu a expansão dos céus,


o coro da vida elevou-se e brotou em êxtase
e depois repousou numa delícia de calma
                                                 (O poema chegado a Nova Zelândia da Polinésia)
               Tudo era obscuro no cosmos.
O espaço cheio de electrões
                     que não deixavam passar a luz.
Até que os electrões se uniram com os protões
e o espaço se tornou transparente
                e correu a luz.
E o Universo se iniciou
                          como no oratório de Haydn.

Antes da grande explosão
                não havia nem sequer espaço vazio,
pois espaço e tempo, e matéria e a energia, saíram da explosão,
nem havia nenhum "fora" onde o universo explorasse
pois o universo continha tudo, ainda tudo espaço vazio.


         Antes do começo só Awonawilona existia
         ninguém mais com ele no imenso espaço do tempo
         a não ser a obscuridade por todo o lado
         no espaço do tempo.
         E tomou o seu pensamento fora no espaço...
                Não existia nada, nem existia o nada.
                Entre o dia e a noite não havia limite.
                Tudo no princípio estava velado...
    Ou como o contam nas Ilhas Gilbert:
            Na Arean sentado no espaço
            como uma nuvem flutuando sobre o nada...

Da sua cosmologia: "Na Arean estava sentado sozinho no espaço
como uma nuvem que flutuava no nada. 
Não dormia porque não havia o sono;
não tinha fome, porque não havia a fome.
Esteve assim durante muito tempo,
até que lhe ocorreu uma ideia: 'Vou fazer uma coisa'"

A expansão do universo é
as velocidades provenientes da grande explosão.
E um difuso transfundo de estática de rádio
ficou flutuando,
um vago rumor de rádio disperso no universo
como um eco longínquo do Big Bang,
                           não obstante o "efeito dieléctrico"
de umas caganitas de pombas na antena
(um casal de pombas)
                                      esta estática
é o mais antigo sinal captado pelos astrónomos
                (antes da luz das galáxias mais distantes).

A primeira ideia que lhes ocorreu para explicar um ruído de fundo
que aparecia nas antenas com que acompanhavam
um satélite de telecomunicações
é que se tratava de excremento (vulgo, cagadelas) de pombas.

Vaga radiação como um eco de quando o universo era opaco,
1.000 vezes menor e 1.000 mais quente que agora,
ou seja, qualquer par de partículas 1.000 vezes mais juntas.
... Antes que o céu e a terra tomassem forma

tudo era vago e amorfo.
Quando o céu e aterra estavam unidos no vazio e pura simplicidade,
então, sem terem sido criadas, as coisas existiram.
Esta foi a Grande Unidade
mas todas sendo diferentes,,,,


                     ... Primeiro era o garnde ovo cósmico. Dentro do ovo
                     havia caos. E sobre o caos flutuava P'an Ku.
                                       Céu e terra sem forma.       
                     Tudo era vago e amorfo...
... No princípio só havia neblinas.
           Neblinas brancas, azuis, amarelas.
                  As nuvens fê-las de neblina branca.
A noite fê-la da neblina negra.
                  A terra fê-la com todas as neblinas.
Ele cantou ao criar a terra.
Ele fez a terra cantando...
... Do abismo nasceu a terra, quando não havia céus nem terra.
           Ali onde antigamente não havia céu.
Primeira, segunda, terceira, três vezes quatrocentas épocas,
milhares de épocas.
Só por si mesmo, na Profunda Noite.
Soou a Primeira Palavra,
               ali onde não havia céu nem terra...
           A passagem da era da radiação
           à era presente da matéria.
Antes era tanta a energia dos fotões
que a maior parte do universo era radiação
e não massa.
        Ou podemos dizer que tudo era pura radiação
sem matéria essencialmente.
                Mas a era da pura radiação
começou somente depois dos primeiros minutos.
                Antes a matéria sim foi importante,
embora uma matéria diferente da do presente universo.
... No princípio tudo densa obscuridade,
sem formas, vazio...

Tao (道) significa literalmente "o caminho",
não apenas um caminho físico e espiritual,
mas o Absoluto que, por divisão, criou
os opostos e complementares Yin e Yang,
a partir dos quais todas as "dez mil coisas" 


                        ... Então o Tao não tinha nome.
                        Teve-o e foi a criação...
 ... Tudo imóvel, tudo quieto, tudo silencioso, tudo vazio
no céu.
          Não havia nada reunido, nada junto,
não existia nada que existisse, somente imobilidade,
silêncio, nas trevas, na noite...
          Caos no qual não se distinguia o que é, asha,                
do que não é, drug (do livro que queimou Alexandre Magno
mas foi  reconstituído de memória)
                    ... não havia senão crepúsculo...
é o que contam os Cunas nas suas ilhas de coral.
Quando o universo era 10.000 vezes menor que agora
o seu calor era 10.000 vezes maior,
Houve um tempo em que a temperatura era tão alta
que a colisão de protões com protões
produzia partículas materiais da pura energia.
... No princípio só existia o Uno sem outros;
                                    esse Ser pensou: desejo ser muitos...
... Ele estava sentado no meio do espaço
e tomou consciência de si e que só ele existia.
Pôs-se a pensar o que podia fazer. E chorou,
Suas lágrimas são os Grandes lagos.
                   Desejou a luz e a luz foi feita...
... Surgiu no meio das trevas originais
com a sua coroa de plumas que são gotas de orvalho.
                              A dona das trevas é a coruja...



      O positrão é a antipartícula do electrão.
      Quando um positrão choca com um electrão
      a energia dos dois faz-se pura radiação.
      (A relação entre partícula e partícula é recíproca,
      o positrão é a antipartícula do electrão
      e o electrão é a antipartícula do positrão.)
Os anos não eram a terra girando em torno do  sol,
não havia terra, não havia sol,
o tempo era o da órbita de um electrão
em redor de um núcleo de átomo de hidrogénio.
                    ... Naquele tempo havia escuridão e não havia abundância.
Primeiro foi um tempo zero com infinita temperatura.
            Uma centésima de segundo depois do princípio
       (como os cientistas teóricos pensam que foi
       imediatamente depois do princípio)
o universo era tão simples como nunca voltará a ser,
uma massa indiferenciada de matéria e radiação,
todas as partículas chocando rápidas com as outras partículas.


Pelo que, apesar da rápida expansão,
o universo estava num estado de equilíbrio térmico,
            e a temperatura era 1011 oK.
As partículas abundantes eram o electrão com
a sua antipartícula o positrão.
         O calor era demasiado grande para esses electrões e positrões,
por isso eles e os fotões não eram mais que radiação.
         ... Dois gémeos terminaram a criação.
             Ensinaram a produzir fogo, a caçar as focas.
             Ensinaram também os homens a fazer amor.
             Revelaram-lhes os nomes das coisas...
     ... No princípio criou os sexos e juntou-os...
À enorme densidade do início
corresponde uma enorme velocidade de expansão.
O "tempo característico da expansão", assim dizem,
é 100 vezes a extensão do tempo
em que o tamanho do universo aumenta 1 por cento,
a gravitação continuamente travando a expansão,
Há um electrão por cada protão
mas demasiado calor para que se forme um átomo.
Depois não há nada de interesse por 700.000 anos.
Então os electrões e os núcleos formaram átomos.
O universo tornou-se transparente à radiação.
Os átomos recém-formados brilharam com grande luz.
                 Depois
as primeiras estrelas começaram a brilhar nas primeiras galáxias.


Ao desacoplar-se matéria e radiação
a matéria começou a formar-se em galáxias e estrelas,
a gravidade grávida de estrelas,
grávida depois de planetas em redor das estrelas,
e 10.000 milhões de anos depois
Weinberg está contando esta história.
                 Mas antes dos protões e electrões
1 milhão de milhões de milionésimas de segundo depois do princípio
o mundo exista
                               "apenas se poderia chamar-lhe material".
(Na Califórnia): O mundo era invisível.
           Transparente como o céu...
Ele existia, Ta'aroa era o seu nome na imensidade,
não havia terra, não havia céu,
não havia mar, nem Tahití.
Existindo o solo, ele se converteu em universo...


A própria ideia de partícula não teria sentido,
cada partícula teria sido do tamanho do universo observável
e o universo com uma temperatura de mais de
100 milhões de milhões de milhões de milhões de milhões de graus
a uma décima de milionésima de milionésima de milionésima
de milionésima de milionésima de milionésima de milionésima
de segundo depois do princípio.
                  ... Ele fez a terra de Hawai como uma concha marinha
e a terra começou a dançar...
É pelo menos logicamente possível que tivesse havido um princípio
antes do qual o tempo não teria sentido.
Uma temperatura zero,
pois menos calor que o absoluto não calor não pode haver.
Um tempo zero,
um momento do passado
no qual é impossível que houvesse antes por princípio
nenhuma cadeia de causa e efeito,
nenhum antes.

                  No princípio foi uma explosão,
mas não uma explosão de um centro para fora
mas uma explosão simultânea em todo o lado, enchendo
todo o espaço desde o princípio, toda a partícula
de matéria afastando-se de toda outra partícula.
Uma centésima de segundo depois
a temperatura era de 100.000 milhões de graus centígrados
ainda tão alta que não podia haver moléculas nem átomos
nem núcleos de átomos, apenas partículas elementares;
electrões, positrões
e neutrinos fantasmagóricos sem carga eléctrica e sem massa,
         "o mais próximo do nada que conceberam os físicos".
                   E o universo encheu-se de luz.
... A noite oprimia a terra como selva impenetrável...
      ... Diz-se que quando ainda era noite,
          quando ainda não havia luz,
          quando ainda não amanhecia,
          dizem que se juntaram. Disseram: "Quem fará amanhecer?"
... Quando era noite,
    Estava a luz metida além numa Coisa Grande.
    Começou a amanhecer e a mostrar a luz que em si tinha,
    e principiou a criar naquela primeira luz...

a


No final dos três primeiros minutos
protões e electrões começaram a formar núcleos,
primeiro os núcleos de hidrogénio
                                           de 1 protão e 1 neutrão.
Não havia ainda nem galáxias nem estrelas
mas uma massa indiferenciada e ionizada de matéria e radiação.
Teria que ter havido um tempo
em que a radiação da energia era maior
que a energia da matéria do universo.
E foi a transição da era da radiação, quando
a maioria da energia do universo era em forma de radiação,
para a era presente da matéria, quando a maioria
da energia está nas massas das partículas.
Num princípio vivia entre densas e obscuras neblinas
lá onde se juntam o céu e o mar.
Criou no mar uma ilha muito grande
que encheu de vida perecível...
... Quando o céu lá em cima não tinha sido mencionado
e o nome da terra nem sequer pensado.
Nenhum pântano ainda formado. E não havia Mesopotâmia...
                        ... Quando toda a terra ainda não existia,
                                e por todos os lados era água,
                                                       uma bruma imensa...
A matéria continuou dispersando-se, dispersando-se,
cada vez mais fria e menos densa,
e um pouco depois - umas poucas centenas de milhares de anos -
tinha arrefecido o suficiente para que electrões
unidos a núcleos engendrassem átomos de hidrogénio e hélio,
e este gás pela gravitação foi-se juntando, juntando mais,
e depois apertando-se mais em forma de galáxias e estrelas
do presente universo.
        ... As estrelas são mulheres
                   que pela noite acendem fogos gelados...
... Lá em cima há uma aldeia de mulheres
que de noite tecem as suas molas junto a lâmpadas muito potentes...
... As estrelas fugazes são excrementos dos astros...
Desde então a pressão da matéria, da matéria só,
foi demasiado fraca para se opor
à união apaixonada da matéria nas galáxias
que vemos no céu.
                Os ingredientes das primeiras estrelas
procedem desses três minutos.
Mas as galáxias estariam tão juntas naquele passado
que nem galáxias nem estrelas nem átomos nem núcleos de átomos
tinham uma existência separada.
... Antigamente a nossa terra estava no lugar do céu...
... No princípio foram criadas formas com a matéria das nuvens
mas sem vida.
            Até que depois foi a criação do primeiro casal...
... O Primeiro Mundo era negro como lã negra
sabemo-lo pelos nossos antepassados... (disse o navajo
a Aileen O'Bryan e disse que os navajos
tinham sabido sempre da evolução).


            Porém se a expansão aumenta e aumenta
aumentará a distância das partículas
até que o universo inteiro pareça
um espaço vazio.
As reacções termonucleares pouco a pouco acabando-se
em todas as estrelas, deixando apenas um cinza
de estrelas negras anãs, estrelas de neutrões e buracos negros,
os planetas girando cada vez mais devagar,
sem nunca chegar a parar num tempo finito.
                  A morte por entropia.
          O céu por fim totalmente negro.
Já não haverá distinção entre estrelas brilhantes e espaço negro.
Ou a matéria converter-se-á novamente em radiação
e tudo voltará a ser luz.
O universo começará de novo a concentrar-se lentamente.
          A concentração será uma expansão ao contrário.
Como se rebobinassem outra vez a película
diante dos espectadores ainda sentados na sala de cinema,
          o cow-boy no seu cavalo branco cavalgado para trás,
          a bala disparada contra a pistola,
          as bocas separadas voltando ao lento beijo.
Dentro de dez mil milhões de anos os astrónomos
verão começar a deslocar-se
do vermelho para o azul as longínquas galáxias.
               O colapso gravitacional do universo.
Quando o universo for uma centésima do seu tamanho actual
o ruído de fundo da radiação dominará o céu.
O céu nocturno tão quente como o dia no presente.
Setenta milhões de anos depois será mais brilhante que o sol.
As moléculas nos planetas e nas estrelas e no espaço interestelar
ir-se-ão decompondo em átomos
e os átomos em electrões e núcleos atómicos.
Depois de outros 700.000 anos
a temperatura será de dez milhões de graus,
estrelas e planetas liquefeitos num cocktail cósmico
           de electrões e núcleos e radiação.
A temperatura subirá a dez mil milhões de graus
nos seguintes 22 dias.
Os núcleos quebrar-se-ão em protões e neutrões.
Muito rapidamente então electrões e positrões surgirão em grande número
das colisões de fotões com fotões
e os fantasmagóricos neutrinos com os seus antineutrinos
farão de todo o cosmos uma comunhão térmica.
                  Até aos últimos três minutos.
É então que se para o tempo, nos últimos três minutos?
E mais além só há a temperatura infinita e a densidade infinita?
        Mais além da última centésima de segundo não sabemos mais
        como não sabemos antes da primeira centésima de segundo
        diz-nos o autor do livro dos primeiros três minutos.
O universo teria então outra vez
100 milhões de milhões de milhões de milhões de graus
mas talvez a bola do cosmos acabe por ressaltar
e começará a expandir-se de novo
e a sua expansão chegará outra vez a bater na parede
e a voltar para trás de novo e assim
a ressaltar outra vez
                  e assim outra vez e outra vez
e assim para sempre.

Foz-Côa                            Cromeleque dos Almendres                               Fratel
E nós o quê: Consciência do Universo ou Universo consciente?

E nós o quê?
             Ciclo sem fim de expansão e concentração
repetido e repetido em infinto passado
                     que não teve começo.
Um infinito ressaltar entre infinitos infinitos.

E qual é a importância de nós?
Nenhum monumento - pedra ou metal - do presente universo.
Vós ser humano olhando na tua janela as estrelas.
                     Nelas também choram!
Morte em acidente de viação ou eleição para presidente.
Qual é a importância de nós próprios?
Um que diz: amanhã é segunda, há que ir ao trabalho.
         A esperança naquele que foi ao lugar donde não se volta
         e voltou.
Que se chamou a si mesmo um processo electromagnético.
Depois de tudo, a vida é um processo.


Tudo é um processo,
depois de tudo.
E por que nos foi dado conhecê-lo
e pô-lo todo coerente numa lousa negra
com uns números de giz, e uns cálculos?
                E se o universo inteiro tende a ser
um só ser universal?
                        E a última etapa da evolução
o superorganismo universal?
Repetindo-se por trás de cada Big Bang este universo
para ser melhor cada vez
até chegar a ser o cosmos perfeito,
presentes nele todos os tempos passados,
recapitulados todos os seres.
Einstein por mais que calculava,
fracassava, as suas equações davam-lhe sempre um modelo não estático
de universo.

Fim de citação

Homenagem ao meu maior amigo e à sua maior amiga.
Homenagem mais pequenina também a Cardenal que, nesta Cantiga, insinua este Oratório de Haydn.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Estrelas e mais estrelas

O CÉU ESTRELADO SOBRE AS NOSSAS CABEÇAS
Quem não se maravilhou com um céu estrelado em noite limpa? Infelizmente, muitos dos que foram criados na cidade. Mas quem como eu nasceu numa aldeia onde não havia corrente eléctrica e a escuridão era total, nunca mais pode esquecer essa maravilha. Todos os povos antigos viram esse espectáculo único e sempre surpreendente, pois mesmo a olho nu se podiam ver objectos maiores e mais pequenas, de cores variadas, apesar da sua pequenez.


Até agora acompanhámos as dificuldades, os esforços, a criatividade e as descobertas que permitiam medir as distâncias a muitas estrelas e galáxias. Só falei dos primeiros momentos mas depois os telescópios foram-se tornando cada vez mais potentes e adquiriram insuspeitadas capacidades de “ler” as estrelas. Assim se foram descobrindo e catalogando estrelas dos mais variados tamanhos, luminosidades, temperaturas e distâncias. Foram observadas na luz visível, mas também em várias “luzes invisíveis”. De tudo isso irei falar, antes de passarmos a uma outra característica fundamental para perceber que o Universo está em expansão: a medição das velocidades das estrelas e das galáxias.

GUINESS DAS ESTRELAS
Antes, porém, num pequeno interregno, vou fazer um mini-Guiness sobre as estrelas.

Como vamos encontrar vários tipos de estrelas, convém ter uma ideia do que isso significa.


Sobre este esquema muito simples e didáctico, só quero acrescentar uma nota sobre as Anãs Pretas. Possivelmente não existe nenhuma no Universo, pois o seu tempo de "formação" é superior à idade do Universo: qualquer coisa como 120 mil milhões de anos enquanto o Universo só tem uns 14 mil milhões!Vão arrefecendo muito lentamente até que se apagam de todo e ficam pretas.
Para os blogonautas mais apressados este esquema chega perfeitamente. Os dois esquemas seguintes dão um número crescente de informações, mas não alteram o essencial.


Aqui não se faz referência às Anãs Castanhas. Porque têm uma massa inferior a metade da do Sol, a sua energia resulta da contracção gravitacional: vão-se contraindo e libertando calor. Como não têm massa suficiente para alcançar a temperatura necessária para transformar Hidrogénio em Hélio, como no Sol, apenas conseguem a fusão nuclear do Deutério em Hélio, mas durante um tempo muito curto. Durante esse tempo, curto, é a reacção nuclear que produz a energia que as faz brilhar


Este esquema mais elaborado, de autoria da NASA, é o sumário mais completo do que hoje se sabe da evolução estelar.

Finalmente, a história - passada, presente e futura - do nosso querido Sol.



E agora vamos ao GUINESS.

1. DISTÂNCIA
1.1. A estrela mais distante: GRB-090423


Este foi um dos mais violentos "sobressaltos" de raios gama (GRB: Gamma-Ray Burst), detectado em 23.Abril.2009 e presenciado por todo o universo visível. As GRB são as mais potentes fontes de energia até agora conhecidas, com emissões da ordem dos 5 x 10-43 J (1*).
Mais longe do que qualquer galáxia ou objecto conhecido, este GRB tornou-se a mais distante explosão de uma estrela jamais detectada, pois ocorreu quando o Universo tinha apenas 630 milhões de anos de idade. Isto significa que a sua “luz” demorou um pouco mais de 13 mil milhões de anos a chegar até nós. Foi fotografado tanto na banda da “luz” Infravermelha ( IV) como na banda da “luz” dos Raios X (RX).

GRB-090423 em IV e RX

Uma possibilidade verdadeiramente excitante é que este GRB tenha ocorrido numa estrela das gerações mais primitivas. A sua detecção confirma que estrelas maciças foram nascendo e morrendo num tempo em que o Universo era ainda muito jovem. O GRB-090423 e outros acontecimentos semelhantes fornecem dados únicos sobre uma época relativamente inexplorado do nosso universo, pois dela restam poucos outros objectos suficientemente brilhantes para serem detectados pelos telescópios actuais.

Notícia de última hora
Muito recentemente, o Telescópio Fermi da NASA descobriu duas enorme esferas com diâmetro de 25 000 anos-luz acima e abaixo do centro da nossa Galáxia, que emitem “luz” na banda dos Raios Gama.


Até agora desconhecida, esta estrutura poderia ser o remanescente de um Buraco Negro supermaciço. Mas, de momento, pouco se sabe sobre a sua origem e a sua natureza.

1.2. A estrela mais próxima: PROXIMA CENTAURI
Localização: Constelação de Centauro
Distância: 4,22 anos-luz
Luminosidade: 0.00001 * Sol
Diâmetro: 0.15 * Sol
Massa: 0,12*Sol
Temperatura: 2670 K
Idade: 1 G (mil milhões) anos


Quando era miúdo aprendi que a estrela mais próxima do Sistema Solar era a Alfa de Centauro. Entretanto, como já descrevi num post anterior, esta estrela é uma estrela tripla e, sendo a mais próxima das três, chama-se naturalmente Proxima Centauri.

2. MASSA
2.1. A estrela mais pesada: HIPERGIGANTE R136a1
Localização: Constelação de Dourado
Distância: 165 000 anos-luz
Luminosidade: 10 000 000 * Sol
Diâmetro: 35 * Sol
Massa: 300*Sol
Temperatura: 5300 K

Da esquerda para a direita: uma Anão Vermelha (RD), o Sol, uma Anã Azul (BD) e a R136a1.

Descoberta no enxame R136a (mais conhecido por R136), é a estrela de maior massa conhecida até agora. Actualmente a sua uma massa é cerca de 265 massas solares, mas deveria ter sido 320 vezes maiores a quando do seu nascimento. Este enxame estelar é composto por estrelas jovens, quentes e de grande massa e situa-se no interior da Nebulosa da Tarântula, numa das nossas galáxias vizinhas, a Grande Nuvem de Magalhães.

2.2. A estrela menos pesada: AB DORADUS C
Localização: Constelação de Dourado
Distância: 49 anos-luz
Massa: 0,5*Sol
Idade: 50 000 000 anos

                         Localização                                                 Órbita da estrela C em torno da A

AB Dourado é um sistema múltiplo formado de, pelo menos, 3 estrelas, cuja maior, a A, gira sobre si própria 50 vezes mais rapidamente que o Sol criando um fortíssimo campo magnético. É tão fulgurante que deu o nome ao sistema: Dourado. A estrela C é uma das que possui menor massa – 93 vezes a de Júpiter – perigosamente próxima do limite de 75-80 vezes, abaixo do qual já não pode ser classificada como estrela.

3. VOLUME
3.1. A estrela com maior diâmetro: HIPERGIGANTE VERMELHA VY CANIS MAJORIS
Localização: Constelação de Cão Maior
Distância: 4900 anos-luz
Luminosidade: 450 000 *Sol
Diâmetro: 2100 *Sol
Massa: 20 *Sol
Temperatura: 3000 K


Estimativas do seu diâmetro inicial apontam para cerca de 3 mil raios solares, mas actualmente está reduzida a 2100, pois já perdeu cerca de metade da sua massa. E continua a perdê-la a um ritmo cada vez mais alucinante, pelo que o seu fim será, provavelmente, uma explosão de supernova, dentro de pouco mais de 3000 anos.
As observações mostram arcos e grumos de material à volta da estrela, movendo-se a diferentes velocidades e em diferentes direcções. Isto é consequência de surtos de ejecção de matéria acontecerem a partir de locais diferentes da estrela. Os astrónomos concluíram ainda que o material mais distante da estrela foi ejectado há cerca de 1000 anos, e o material mais próximo da estrela foi ejectado há aproximadamente 50 anos. Repare-se especialmente nos jactos bem definidos na fotografia tirada com luz polarizada.

EstrelaMaisDiâmetroVY_canis_majorisPerdadeMassMEU


3.2. A estrela com menor diâmetro: GLIESE229
Localização: Constelação da Lebre (Lepus)
Distância: 18 800 anos-luz
Diâmetro: 0,69 *Sol
Massa: 0,58 *Sol
Temperatura: 3700 K

Em 1994, foi fotografada uma companheira e confirmada em 1995, a Gliese 229b, que orbita à sua volta. Contudo levanta um problema: embora seja demasiado pequena para permitir a fusão nuclear do Hidrogénio (como uma estrela), a sua massa, 20 a 50 vezes a de Júpiter (0,02-0,05 massas solares), é, por outro lado, demasiado grande para ser um planeta. Além disso, a existência de gás Metano como em Júpiter parece apoiar a conclusão de que não se trata de uma estrela.
Assim, tratar-se-ia de um planeta muito maciço, dependendo do modo como se formou: se se condensou, como uma estrela, a partir da poeira interestelar, então é certamente uma Anã Castanha (BD); se cresceu por acreção num disco circum-estelar, então seria um planeta gigante. Por isso, há quem prefira chamar-lhe simplesmente um objecto sub-estelar.

4. DENSIDADE
4.1. A estrela com maior densidade: ESTRELA DE NEUTRÕES RX J1856.5-3754
Localização: Constelação de Corona Australis
Distância: 400 anos-luz
Diâmetro: 14 km
Massa: 0,9*Sol
Temperatura: 434 000 K
Idade: 1 000 000 anos

        Uma estrela solitária                       a 200 km/s                      na frente de um cone de deslocação

As estrelas de neutrões são os objectos mais densos que existem. A sua densidade é tão grande que ultrapassa a da própria matéria nuclear, “destruindo” os núcleos dos átomos e convertendo tudo em neutrões.
Tem levantado muitas questões desde que foi descoberto.
Supunha-se inicialmente que estivesse a 200 anos-luz de nós, mas observações posteriores do Chandra RX, em 2002, parecem indicar uma distância dupla, 400 anos-luz. Trata-se de uma estrela de neutrões velha e isolada, que  mede apenas 28 km de diâmetro.
Tem-se revelado um poço de mistérios e dificuldades. Embora seja excepcionalmente quente para a sua idade, cerca de 700 000 °C, não revela qualquer actividade, contrariamente a todas as outras conhecidas até agora.
Novas medições mostraram que se move a uma velocidade, que inicialmente se calculou em 100 km/s, mas agora se sabe ser de 200 km/s, demasiado elevada para captar suficiente material interestelar para poder aquecer tanto a sua superfície.
Finalmente observações ópticas mostraram que a estrela está cercada por uma nebulosa em forma de cone, cuja forma é análoga à ondulação causada pela proa de um navio sulcando as águas. Um ponto muito fraco azul perto da ponta do cone é a estrela de neutrões.
A magnitude aparente visual é 100 milhões de vezes mais fraca do que aquilo que pode ser percebido a olho num um céu escuro.
Com a sua densidade, 1015 Kg/m3, uma cabeça de alfinete pesaria quase 1 milhão de toneladas. Esta densidade poderia sugerir que se tratava de uma estrela de quarks (2*). No entanto, análises posteriores mais refinadas do telescópio Chandra RX melhorado e observações do Hubble revelaram que a temperatura da sua superfície é menor, apenas 434 000 graus, e o seu raio é maior, cerca de 14 km, o que a exclui da lista de candidatos a uma estrela de quarks.

4.2. A estrela com menor densidade: HIPERGIGANTE VERMELHA VY CANIS MAJORIS
É a já nossa conhecida VY Canis Majoris. A sua densidade varia entre 0,000005 e 0,000010 kg/m3.

5. TEMPERATURA
5.1. A estrela mais quente: ETA CARINAE
Localização: Constelação de Quilha (Carina)
Distância: 7000 anos-luz
Luminosidade: 5 000 000 *Sol
Diâmetro: 130 *Sol
Massa: 125 *Sol
Temperatura: 38 000 K
Idade: 3 000 000 anos

É um sistema binário que está perdido no meio de poeiras e gases que forma uma nebulosa com o seu nome (NGC 3372), com dimensões 500 vezes maior que o nosso Sistema Solar. O seu aspecto mais marcante é a variação do brilho em várias ordens de magnitude, consequência de um mecanismo que envolve vários detalhes misteriosos.

Eta Carinae fotografada nas "luzes" Visível, RX, IV e Rádio

É a mais luminosa estrela conhecida da nossa Galáxia. Dada a sua instabilidade, alguns pensam que pode explodir numa supernova a qualquer momento! Mas à distância a que se encontra, esta gigantesca explosão não representa qualquer ameaça à vida. Mas que será um espectáculo inolvidável, disso ninguém tenha dúvida.

NÚCLEO DA NGC 2440: A Estrela mais quente?
Localização: Constelação de Popa (Puppis)
Distância: 4000 anos-luz
Luminosidade: 250 *Sol
Temperatura: 200 000 K
Já depois de fazer a minha pesquisa sobre a estrela mais quente, que várias fontes apontavam para Eta Carinae, descobri uma pergunta no APOD Archive na fotografia do dia 30.Nov.1995: NGC 2440 Nucleus: The Hottest Star? 
Mais tarde, a interrogação caiu e aí temos uma estrela anónima como a mais quente de todas.
No centro desta nebulosa planetária NGC 2440 vê-se uma das estrelas mais quentes conhecidas, com uma temperatura de superfície de cerca de 200 000 graus, trinta vezes mais quente que o Sol.
Esta nebulosa, chamada Puppis (Popa) fazia originalmente parte de uma constelação austral maior, a do navio da epopeia “Jasão e os Argonautas”, Argo Navis, o Navio Argus, que foi, séculos mais tarde, dividida em três partes, sendo as outras duas a Carina (a quilha e casco) e a Vela (as velas do navio). Puppis (Popa) é a maior das três constelações.
A nebulosa é composta de material expelido por uma estrela do tipo do Sol que está a entrar na sua fase final. Notam-se detalhes de estruturas extremamente complexas em volta da estrela central da nebulosa.

Explicação: apesar desta última informação mantive a Eta Carinae porque aquela imagem composta me deu muito trabalho a fazer ("já nasci cansado!") e portanto merecia ao menos uma publicaçãozinha num qualquer blog perdido do ciberespaço! 

5.2. A estrela mais fria: ANÃ BRANCA WD 0806-661 B
Estamos habituados a ideia de que as estrelas são muito quentes. No entanto, no início deste ano foi detectada uma estrela à “temperatura ambiente”. Exactamente: 30 ºC!
Localização: Constelação de Peixe Voador (Volans)
Distância: 63 anos-luz
Luminosidade: 2 *Sol
Diâmetro: 0,02 *Sol
Massa: 7 *Júpiter = 965 *Terra
Temperatura: 30 ºC
Idade: 1,5 G.anos

Uma estrela Anã Castanha (B) orbita a sua companheira Anã Branca (A)

Este “objecto”, que orbita uma estrela Anã Branca (WD), tem apenas sete vezes a massa de Júpiter, pelo que deveria, normalmente, ser classificado como planeta. O problema é que os planetas formam-se a partir do disco de gás e poeira que gira em torno das estrelas. Ora o objecto WD 0806-661 B está demasiado longe da sua estrela (2500 vezes a distância da Terra ao Sol) para ser considerado um planeta, caso se tenha formado onde está agora.
Por isso, alguns consideram-no que pode vir a desempenhar o papel de "elo perdido" para revelar o modo como a temperatura afecta a atmosfera e as características de objectos do tamanho de Júpiter.

6. LUMINOSIDADE (ABSOLUTA)
A Luminosidade é a quantidade de energia que um corpo irradia por uma unidade de tempo. É expressa em Watts ou em termos da Luminosidade solar, LSol, que corresponde a 3,827×1026 Watts. É, pois, uma característica própria da estrela.
Já o Brilho (aparente), que surge na secção seguinte, tem apenas a ver com os nossos “olhos” e depende da Luminosidade (Absoluta) mas também da distância.

6.1. A estrela mais luminosa: LBV 1806-20
Localização: Constelação de Sagitário
Distância: 45 000 anos-luz
Luminosidade: 25 000 000 *Sol
Diâmetro: 150 *Sol
Massa: 160 *Sol
Temperatura: 25 000 K
Idade: 2 000 000 anos

Descoberta nos anos 90, na direcção da constelação do Sagitário, a 45 000 anos-luz, do outro lado da Via Láctea, está “encoberta” por espessas nuvens de pó interestelar que impossibilitam a sua visão. Tanto assim que não foi detectada no Visível, mas no IV (InfraVermelho), os únicos raios “luminosos” capazes de atravessar essa poeirada toda. Foi classificada uma estrela “azul, luminosa e variável” (LBV, do inglês Luminous Blue Variable), um tipo de estrelas muito maciças, muito quentes e sumamente brilhantes. A sua luminosidade varia entre 5 e 38 millhões de vezes mais que o Sol.
Contudo, um dos problemas na determinação da massa e da luminosidade de estrelas muito luminosas e a grandes distâncias é a dificuldade em confirmar se se trata apenas de uma estrela isolada ou de um sistema múltiplo. As observações, embora de altíssima resolução, deixam ainda em aberto a possibilidade de se tratar de um aglomerado de algumas estrelas numa órbita apertada, sendo necessárias mais observações para estabelecer a singularidade da estrela. Tomando-a como estrela única, um dos seus mistérios é o processo pelo qual conseguiu formar-se com uma massa tão elevada. Actualmente as teorias de formação de estrelas sugerem que devem estar limitadas a cerca de 120 massas solares, pois o calor e a pressão do centro destas estrelas enormes afastam a matéria da sua superfície, impedindo a acreção de mais massa. Uma possibilidade é ter sido formada segundo um mecanismo, chamado de "formação de estrelas por choque induzido", que ocorre quando uma supernova explode e induz a formação de uma ou mais estrelas de massa elevada numa nuvem molecular. Outra característica única é estar localizada num pequeno enxame de estrelas que contém uma estrela muito rara (só se conhecem quatro deste tipo em toda a Galáxia): uma repetidora de raios gama “moles” (de menor energia) (SGR: Soft Gamma ray Repeater). Um SGR é, de acordo com a teoria vigente, uma fase curta na vida de uma magnetar, uma estrela de neutrões com um muito elevado campo magnético. Durante este período, a estrela sofre vários SGR provocados por tremores de estrela devido ao campo magnético na sua superfície.
A presença de estrelas tão diferentes como a variável azul luminosa, a repetidora de raios gama moles e uma estrela ainda em formação é um exemplo de que as estrelas num aglomerado não se formam todas ao mesmo tempo, nem mesmo quando o aglomerado é pequeno.

6.2. A estrela menos luminosas: DUAS ANÃS CASTANHAS

Um par de estrelas anãs castanhas - cada uma com cerca de um milionésimo do brilho do sol - foi descoberto pelo Telescópio Spitzer da Nasa. Antes, os astrónomos pensavam que os corpos com um tal brilho fossem apenas uma anã castanha entre muitas outras. Mas o facto de este par ser duas vezes mais brilhante do que o esperado, dada a sua temperatura, levou a considerá-las verdadeiras estrelas extremamente enfraquecidas.

7. BRILHO (APARENTE)
7.1. A estrela mais brilhante: SIRIUS
Localização: Constelação de Cão Maior
Distância: 8,57 anos-luz
Luminosidade: 25,4 *Sol
Diâmetro: 1,7 *Sol
Massa: 2 *Sol
Temperatura: 9940 K
Idade: 200 000 000 anos
Esta fotografia tirada, no Japão, mostra, em primeiro plano, uma folha coberta de cristais de gelo que parecem querer imitar as estrelas que brilham no céu profundo. No extremo esquerdo, pode ver-se, com dificuldade, um meteoro. Abaixo e à direita do meteoro, relampeja o tracejado brilhante de um avião. Segue-se a estrela mais brilhante do céu nocturno, Sirius. À sua direita, estende-se a constelação de Orion, incluindo "As Três Marias", as três estrelas que formam o cinturão da Orion, abaixo da gigante vermelha Betelgeuse. O aglomerado brilhante mais à direita são as Plêiades.

Como vimos num post anterior, trata-se de um sistema binário, A e B, separadas por 20 UA.

7.2. A “estrela” menos brilhante: GALÁXIA DE ANDRÓMEDA
É muito difícil dizer qual é a estrela menos brilhante. Mas, como já aqui referi, o objecto menos brilhante que podemos ver a olho nu é a galáxia de Andrómeda.
Localização: Constelação de Andrómeda
Distância: 2 500 000 anos-luz
Diâmetro: 220 anos-luz

Mas tenhamos paciência, porque daqui a uns 3 mil milhões de anos, ou ainda antes, vamos colidir e então já podemos vê-la ao pormenor. Está a aproximar-se a 230 mil km/h, mas não se conhece a sua velocidade transversal: se for suficientemente rápido, podemos acabar por não chocar.
Mas se tal acontecer poderá ter vários cenários:
- um aparentemente mais calmo

Modelização de uma colisão de galáxias
Fonte: Ciel et Space, Set.2006, p.32

- outro talvez mais amigável, abraçando-nos com carinho e amor, mas sem esquecer que há abraços que também matam


- ou de maneira mais tempestuosa, onde tudo “voa” para cada lado num verdadeiro furacão
As estrelas bonitinhas pertencem à nossa Galáxia e estão a observar a violentíssimo colisão entre as espectaculares galáxias Arp 273, a mais de 300 milhões de anos-luz de nós, separadas por 100 mil anos-luz. O seu aspecto distorcido e retorcido é devido às gigantescas forças de marés.
Esta imagem foi publicada pela NASA, a 21.Abril passado, para comemorar o 21.º aniversário do lançamento do Telescópio Hubble.

E já agora para mostrar as várias “caras” da galáxia Andrómeda, aqui vão uma série de retratos tirados sob várias “luzes”.

Andrómeda vista nos RX e no UV (UltraVioleta)

Andrómeda vista no IV (InfraVermelho) e no Visível

8. DUAS JÓIAS DA PUBLICIDADE ENGANOSA
8.1. Uma Estrela de diamante: BPM-37093
Localização: Constelação de Centauro
Distância: 53 anos-luz
Luminosidade: 0,001 *Sol
Diâmetro: 0,0029 *Sol
Massa: 1,1 *Sol
Temperatura: 11 500 K

O interior desta muito velha Anã Branca é um diamante com um diâmetro superior a 4000 km.
O interior das Anãs Brancas é muitas vezes Carbono puro. Sob efeito da pressão podem cristalizar na forma de diamante. A descoberta desta estrela veio apoiar teorias, dos anos 60, sobre a “cristalização das estrelas”.
Mas não vale a pena “começar a salivar”, pois este diamante só se mantém devido às elevadíssimas pressões e temperaturas. Se o retirássemos para o meio ambiente, os cristais perdiam a estabilidade, desmoronavam-se e ficávamos com uma mão cheia de Carbono.
Como outras Anãs Brancas, pensa-se que é formada de Carbono e Oxigénio, criados pelas reacções nucleares de fusão que acontecem no interior das estrelas e transformam o Hélio em Carbono e depois em Oxigénio.
Supõe-se que, quando uma Anã Branca arrefece, o seu material deve cristalizar, começando pelo centro. Aproveitando o facto desta estrela pulsar, foi possível testar esta teoria, através de observações sísmicas (asterossismológicas), que permitiram estimar em 90% a massa cristalizada. Outras observações deram valores mais baixos. De qualquer modo, uma estimativa do material cristalizado é da ordem de 1029 kg.
Uma vez que um diamante é composto de carbono cristalizado, esta estrela é também conhecida por Lucy, nome retirado da canção dos Beatles, Lucy in the Sky with Diamonds.

8.2. Um Planeta de diamante: WASP-12b
Localização: Constelação de Auriga
Distância: 871 anos-luz
Diâmetro: 520 000 kml
Massa: 18 500 *Terra
Temperatura: 2525 K

O planeta gigante maciço, WASP-12b, está representado a roxo, com uma zona transparente a indicar a sua atmosfera. A sua órbita não é bem circular, o que pode significar a existência de um planeta invisível mais pequeno, desenhado a castanho e que perturba a sua órbita. A sua massa está a ser sugada pela estrela formando um disco em torno da estrela, mostrado em vermelho.
Trata-se de um exoplaneta, planeta que não pertence ao nosso Sistema Solar, muito especial.
Ligeiramente mais pequeno que Júpiter tem apenas um terço da sua massa. Porque está muito próximo (3,5 milhões de km) da sua estrela (WASP-12, as forças de maré da estrela estão distorcendo-o em uma forma oval e a sugar a sua atmosfera a um ritmo de um décimo milionésimo da massa de Júpiter (189 x 1015 toneladas) por ano, o que significa que desaparecerá daqui a uns 10 milhões de anos. Outro efeito é a sua elevada temperatura – 2500 K ( 200 °C) – imprópria para um planeta do nosso Sistema Solar.


Dada a sua elevada relação Carbono/Oxigénio, 1 em vez da habitual 0,54, é de esperar que tenha "rochas de carbono puro, como diamante ou grafite, e uma enorme quantidade de gás metano". Segundo outro autor: “Embora planetas gigantes ricos em carbono, como WASP-12b, não tenham sido observados, a teoria prevê miríades de composições para planetas sólidos em que o Carbono é dominante, sob a forma de grafite ou diamante, em oposição à composição em silicatos predominante na Terra”.

POR QUE SÃO TÃO DIFERENTES?
Como vimos há estrelas para todos os gostos. Aqui fica uma tabela com os valores extremos de várias características das estrelas. Embora não esteja actualizada, serve para ficarmos com uma ideia das suas diferenças.
M = Massa; L = Luminosidade; R = Raio; T = Temperatura

Para responder à questão de tanta diversidade, vou de seguida falar um pouco da história da Luz, dar algumas noções de Espectroscopia e da responsabilidade do átomo, contar algumas etapas da odisseia da Astrofísica e acabar com uns apontamentos sobre o Efeito de Doppler sem o qual não poderíamos medir a velocidade de aproximação ou afastamento das estrelas e das galáxias.

NOTAS
(1*) Para perceber quanto vale 1 J (Joule), basta recordar a definição que aprendemos no “Liceu” de que 1 caloria = 4,1868 J e 1 Caloria é a energia necessária para elevar 1 ºC a temperatura de 1 g de água.
(2*) Até há uns anos atrás, supunha-se que as partículas elementares eram o electrão, o protão e o neutrão. Entretanto descobriu-se que tanto o protão como o neutrão são formados por outras partículas elementares, chamadas quarks. É por isso que, se a densidade da estrela continuar a aumentar, pode “destruir” os neutrões e libertar os quarks, formando uma estrela de quarks, que será ainda mais densa.